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Estamos nos esquecendo de viver o presente?

Foto do escritor: Giovana Rodrigues
Giovana Rodrigues
8 de jul.
5 min de leitura

Será que estamos nos esquecendo de viver o presente? São 9 horas e 13 minutos. É esse o tempo médio que um brasileiro passa conectado, todos os dias, bem acima da média mundial, que é de 6 horas e 38 minutos.


Só as redes sociais já tomam quase 4 dessas horas. E, ainda assim, quase 3 em cada 10 pessoas dizem que gostariam de reduzir esse tempo. O uso excessivo de telas está no topo da lista de hábitos que os brasileiros mais desejam mudar à frente até da alimentação e do sedentarismo.


Isso porque quando estamos conectados, focamos na tela, no "mundo virtual" e não percebemos que o "mundo real" é onde tudo acontece. As pessoas já sentem essa necessidade de estarem mais presentes.


O problema está no paradoxo: mesmo quando o corpo está ativo, a mente está “em outro lugar”. Ou seja, estamos nos esquecendo de viver o presente.


A mente que nunca está onde o corpo está


Em 2010, dois pesquisadores de Harvard, Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, decidiram medir algo que parecia impossível de medir: o quanto, ao longo do dia, nossa mente está realmente onde estamos e o quanto ela está em outro lugar.


Eles desenvolveram um aplicativo que interrompia a rotina de mais de 2 mil pessoas em momentos aleatórios e perguntava três coisas simples:


  1. Como você está se sentindo agora?

  2. O que você está fazendo agora?

  3. E sua mente está pensando em outra coisa?


O resultado, publicado na revista Science, foi que praticamente metade do tempo em que estamos acordados, nossa cabeça está em outro lugar que não o presente, pensando no que já aconteceu, no que ainda pode acontecer, ou simplesmente divagando, comprovando que estamos nos esquecendo de viver o presente.


Tristeza quando não estamos presentes



O achado mais relevante não foi só esse: as pessoas eram visivelmente menos felizes nos momentos em que a mente vagava, independentemente do que estivessem fazendo. Ou seja, divagar tornava as pessoas infelizes mesmo durante atividades prazerosas.


Mais interessante ainda é que quando os pesquisadores olharam a ordem dos acontecimentos ao longo do tempo, perceberam que a divagação mental geralmente vinha antes da queda de humor e não o contrário. Então, a mente vagar parece provocar a tristeza.


Isso muda a pergunta que normalmente fazemos de "por que estou tão ansioso ou desanimado hoje?", mas talvez para "onde minha mente esteve o dia inteiro, enquanto meu corpo fazia outra coisa?".


Passado, futuro e os nomes que a psicologia dá a isso


Se essa mente que vagueia tivesse dois destinos favoritos, eles seriam o passado e o futuro. Quando ela vai para o passado, geralmente carrega perguntas como "por que aconteceu?" ou "e se eu tivesse feito diferente?". A psicologia chama isso de ruminação e ela está fortemente associada a quadros depressivos.


Quando ela vai para o futuro, as perguntas mudam para "e se der errado?" ou "e se eu não conseguir?". Isso é a preocupação, associada à ansiedade.


Claro que ter pensamentos sobre passado e futuro não diagnosticam uma pessoa com depressão ou ansiedade, mas eles são indicativos importantes na terapia sobre como sua mente funciona e que estamos nos esquecendo de viver o presente como sociedade.


Será que tenho pensamentos negativos repetitivos?


Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), abordagem desenvolvida por Steven Hayes, ruminação e preocupação juntas recebem um nome técnico: pensamentos negativos repetitivos.


Sozinhos, esses pensamentos não são o problema, até porque pensar no passado e planejar o futuro são capacidades humanas essenciais. O problema começa quando esses pensamentos se tornam automáticos, repetitivos e, então, passam a afastar a pessoa daquilo que é importante para ela, ou a comprometer sua qualidade de vida.


E há um motivo prático, quase óbvio quando paramos para pensar, por trás da importância de voltar ao presente, porque é o único lugar onde a ação é possível. Não dá para consertar o passado nem para viver o futuro antecipadamente, mas dá para agir, sentir e escolher apenas agora.


Um dos processos centrais da ACT é justamente esse, o de desenvolver a capacidade de entrar em contato com o momento presente, de forma flexível, ao invés de ficar preso ao piloto automático da ruminação ou da preocupação.


Estamos todos no piloto automático



Essa imagem do piloto automático descreve bem o que acontece na prática, comer sem perceber o sabor da comida, atravessar o dia sem lembrar o que aconteceu nele, estar com alguém e ao mesmo tempo estar em outro lugar mentalmente.


Parece que hoje em dia todos estamos assim, como se tivesse se tornado o funcionamento natural da mente que, como mostrou o estudo de Harvard, passa quase metade do tempo em outro lugar.


Ou até mesmo quando tentamos fazer tudo ao mesmo tempo. O momento de tomar café da manhã se une com checar a agenda no computador ou ver o feed nas redes sociais.


O problema é que viver no piloto automático tem um custo emocional:


  • Memórias não se formam direito quando não prestamos atenção a elas.

  • Relações se tornam mais rasas quando a presença física não vem acompanhada de presença mental.

  • A sensação de que "a vida está passando rápido demais" muitas vezes não é sobre o tempo em si, mas sobre quanto dele vivemos de fato presentes.


Então, se estamos nos esquecendo de viver o presente, como melhorar desse estado?


O que ajuda a sair do piloto automático e estar presente?


A boa notícia é que essa é uma habilidade treinável e existe ciência sólida por trás disso.


O mindfulness, ou atenção plena, é a prática de dirigir a atenção ao momento presente de forma intencional e sem julgamento. Criado como intervenção clínica por Jon Kabat-Zinn no fim dos anos 1970 (o programa MBSR, de redução de estresse baseada em atenção plena), deu origem depois a abordagens como a MBCT, terapia cognitiva baseada em mindfulness, que hoje tem eficácia comparável à de antidepressivos na prevenção de recaídas em quadros depressivos.


Na prática clínica, isso não significa horas de meditação sentada, apesar da meditação ajudar. Pode começar em gestos pequenos, como os de notar de verdade o sabor da primeira garfada de uma refeição, sentir os pés no chão ao caminhar, perceber a respiração por alguns segundos antes de responder uma mensagem.


O objetivo aqui não é esvaziar a mente, até porque isso seria quase impossível, já que produzimos milhares de pensamentos por dia, mas notar quando ela foi embora e trazê-la de volta, sem culpa, quantas vezes for preciso.


Quais práticas de mindfullness eu posso fazer?



Existem diversas práticas de atenção plena que você pode começar a adotar em sua rotina para desanuviar dessa pressa, como:


  1. Respiração consciente;

  2. Meditação por alguns minutos;

  3. Ler um livro com o celular desligado;

  4. Caminhar na natureza;

  5. Fazer uma aula de ioga;

  6. Fazer uma caminhada meditativa;


E muito mais! A prática de mindfullness vem nos recordar que estamos vivos no agora e é nisso que devemos focar.


Presente não precisa anular o passado ou o futuro


Viver o presente não significa ignorar o passado ou parar de planejar o futuro. Lembrar, planejar e sonhar fazem parte do que nos torna humanos. O que a ciência mostra é que o problema começa quando essas viagens mentais deixam de ser escolhas e passam a ser um estado permanente, quando não conseguimos mais escolher onde colocar a atenção.


Aprender a perceber esse movimento da mente, e trazê-la de volta quando for útil, é um dos processos que a terapia pode ajudar a desenvolver.


Se você sente que vive mais no piloto automático do que gostaria, ou que o peso do passado e a ansiedade sobre o futuro estão tomando mais espaço do que o presente, conversar com um psicólogo pode ser um bom primeiro passo.


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