A extrema magreza voltou a ser o padrão de beleza e isso é perigoso

Se você tem sentido que os corpos extremamente magros voltaram a dominar as redes sociais, os tapetes vermelhos e até as conversas do dia a dia, você não está imaginando coisas.
A extrema magreza voltou com força em 2026 e ela chegou acompanhada de um ingrediente novo: o uso indiscriminado de me
dicamentos para emagrecimento por pessoas que nunca precisaram deles.
Esse artigo não é para culpar ninguém, nem as celebridades expostas, nem quem está usando essas medicações, nem quem se pega comparando o próprio corpo com o que vê na tela.
É para ajudar a entender o fenômeno, reconhecer os riscos reais que a extrema magreza como padrão estético traz para a saúde mental, e mostrar que existe caminho de cuidado quando isso deixa de ser só um incômodo e passa a doer de verdade.
O retorno da extrema magreza
A valorização da extrema magreza não é novidade. Nos anos 1990 e início dos anos 2000, a estética conhecida como heroin chic transformou corpos extremamente magros, pele pálida e olheiras profundas em sinônimo de sofisticação, inspirada, literalmente, na aparência de usuários de drogas pesadas.
Modelos como Kate Moss se tornaram os rostos dessa fase, amplamente criticada na época por normalizar comportamentos ligados a transtornos alimentares.
Depois de duas décadas em que o movimento de diversidade corporal parecia ter conquistado algum espaço, com mais representatividade de corpos diversos em campanhas e passarelas, a lógica da extrema magreza nunca desapareceu de verdade. E em 2026, ela voltou com tudo.
Colunistas e estilistas têm chamado atenção para o padrão de corpos cada vez mais magros entre celebridades. Atrizes como Demi Moore, Jenna Ortega e Emma Stone tiveram silhuetas visivelmente mais finas, com ossos sobressaindo-se, comentadas durante a temporada de premiações do cinema.
Celebridades nas redes sociais

No universo pop, o caso da cantora Ariana Grande tem sido o mais discuto, tanto que ela anunciou uma pausa na carreira depois de meses de escrutínio público sobre seu corpo após o lançamento do videoclipe de “Petal” em que ela posava de forma que sua extrema magreza ficasse ainda mais evidente.
O caso foi tão comentado que o Instagram colocou um aviso sobre transtornos alimentares nos posts da cantora sobre o videoclipe, tamanha a preocupação. Mas ela não é a única, nomes como Rosé, do Blackpink, e a atriz Lily Collins também têm sido alvo frequente de comentários sobre a extrema magreza de suas aparências recentes.
Além disso, diversas celebridades são vistas fazendo body checking: o ato de checar o quão magra se está. Isso tem sido muito visto pelo ato de postar fotos propositalmente posadas para demonstrar a extrema magreza por celebridades.
Para tal, elas apostam em roupas que demonstrem sua "delicadeza", mostrem clavículas saltadas, por exemplo, ou até utilizam corpos maiores para criar uma grande proporção de tamanho para se sentirem menores.
As canetas emagrecedoras usadas sem necessidade

A grande diferença entre o heroin chic dos anos 1990 e a onda de extrema magreza de agora tem nome: os medicamentos agonistas de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, tal quais, Ozempic, Wegovy, Mounjaro, entre outros.
Criadas para tratar obesidade e diabetes tipo 2, essas medicações vêm sendo usadas cada vez mais por pessoas sem indicação clínica, que já têm peso considerado saudável e buscam apenas perder alguns quilos ou manter uma magreza extrema como ideal estético.
O problema é que os estudos de segurança dessas medicações foram conduzidos com pessoas com obesidade ou diabetes, não com o público que vem recorrendo a elas hoje.
Esse uso fora do contexto clínico deu origem a um termo que começou a circular entre médicos em 2026: agonorexia. Ainda não é um diagnóstico oficial, mas descreve um padrão que especialistas em endocrinologia têm observado com preocupação crescente.
A supressão excessiva do apetite causada pelo medicamento evolui para um quadro parecido com a anorexia, com perda importante de peso, aversão à comida, desnutrição, perda de massa muscular e uma relação cada vez mais disfuncional com a alimentação.
Em muitos casos, soma-se a isso uma dependência emocional do medicamento, um medo intenso de parar o tratamento e "recuperar" o peso, mesmo quando o peso já está abaixo do saudável.
Essas medicações agem diretamente nos mecanismos cerebrais que regulam fome, saciedade e recompensa. Isso significa que, para quem já carrega uma insatisfação corporal importante ou um transtorno alimentar latente, a caneta emagrecedora pode se tornar uma ferramenta poderosa para sustentar uma restrição alimentar extrema sem sequer sentir a fome que, normalmente, funcionaria como um limite biológico natural.
Entretanto, usadas com indicação médica, acompanhamento adequado e para os fins corretos, essas medicações trazem benefícios reais para quem vive com obesidade. O problema está no uso banalizado, fora de qualquer critério clínico, motivado unicamente pela busca da extrema magreza como estética.
O papel das redes sociais no culto à extrema magreza

Nenhuma tendência de extrema magreza se sustenta sozinha, porque ela precisa de um ambiente que a alimente, e hoje esse ambiente são as redes sociais.
Uma revisão sistemática publicada na PLOS Global Public Health, que analisou cinquenta estudos em dezessete países com jovens de 10 a 24 anos, encontrou uma associação clara.
Quanto maior a exposição a tendências que valorizam a extrema magreza, a conteúdos que romantizam transtornos alimentares e a plataformas focadas em aparência, maior o risco de comportamentos alimentares desordenados, como compulsão, purgação, uso de laxantes e dietas extremas.
O mesmo estudo, no entanto, aponta um caminho de proteção, a alta alfabetização sobre como as redes sociais funcionam e maior apreciação pelo próprio corpo reduzem esse risco.
Existem também comunidades online organizadas especificamente em torno da valorização da extrema magreza e da romantização de transtornos alimentares, espaços que transformam a restrição alimentar em competição e pertencimento entre seus membros.
Se você perceber esse tipo de comunidade ao seu redor, seja no seu feed ou na vida de alguém que você ama, o mais importante não é tentar entender a lógica interna desses espaços, e sim buscar ajuda profissional o quanto antes tanto para quem está exposto quanto, se for o caso, para você mesma ou mesmo enquanto rede de apoio.
O que a extrema magreza nas redes ativa no seu cérebro
Entender por que essas imagens mexem tanto com a gente ajuda a tirar um pouco do peso da autocrítica. O cérebro humano é constantemente treinado, desde cedo, a fazer comparação social, é um mecanismo evolutivo antigo, que nos ajudava a entender nosso lugar no grupo.
O problema é que hoje esse mecanismo é bombardeado, diversas vezes por dia, por imagens editadas, filtradas e cuidadosamente selecionadas de corpos que representam uma parcela mínima e muitas vezes inatingível da realidade.
Cada vez que um conteúdo de extrema magreza recebe muitos likes ou engajamento, o algoritmo aprende a mostrar mais daquilo para você e para milhões de outras pessoas. Isso cria um ciclo de reforço: quanto mais esse padrão aparece, mais ele parece "normal", e mais a insatisfação com o próprio corpo, que não se parece com aquilo, aumenta.
Estudos apontam que essa insatisfação corporal crônica é um dos fatores de risco mais consistentes para o desenvolvimento de transtornos alimentares. No Brasil, estimava-se que 15 milhões de pessoas convivem com algum tipo de transtorno alimentar em 2024, de acordo com o site de notícia da Câmara dos Deputados.
Os números variam entre diferentes levantamentos oficiais, mas todos apontam para uma questão de saúde pública relevante, especialmente entre o público jovem, onde a prevalência é ainda mais alta que na população em geral.
Sinais de alerta de quando a preocupação com o peso deixa de ser "normal"

Nem toda preocupação com alimentação ou corpo indica um transtorno. Mas alguns sinais merecem atenção, principalmente quando aparecem juntos e persistem ao longo do tempo:
Isolamento social relacionado a situações que envolvem comida (evitar refeições em grupo, eventos, restaurantes);
Rigidez extrema com regras alimentares próprias, com forte culpa ou ansiedade ao "quebrá-las";
Mudanças de humor associadas à balança, ao espelho ou a comentários sobre o corpo;
Exercício físico compulsivo, mesmo doente, cansada ou machucada;
Uso de medicações para emagrecimento sem acompanhamento médico, ou automedicação;
Perda de peso rápida acompanhada de fadiga extrema, queda de cabelo, alterações menstruais ou tontura;
Discurso constante sobre o próprio corpo com tom predominantemente negativo, mesmo diante de elogios ou fatos que o contradizem.
Nenhum desses sinais, isoladamente, é um diagnóstico. Mas se você reconheceu vários deles em você ou em alguém próximo, vale conversar com um profissional.
Como ajudar alguém ao seu redor
Se você suspeita que alguém que você ama está lidando com isso, algumas atitudes fazem diferença real:
Evite comentários sobre peso, corpo ou aparência, mesmo os que parecem elogios ("nossa, você emagreceu!") podem reforçar o problema;
Escute sem julgar e sem tentar "consertar" com conselhos rápidos sobre dieta ou força de vontade;
Ofereça companhia, não vigilância, pois a pessoa precisa se sentir acompanhada, não policiada;
Incentive a busca por ajuda profissional, sem pressa nem ultimato, deixando claro que você está disponível para apoiar esse processo.
Cuide também da sua própria saúde emocional nesse processo, uma vez que apoiar alguém com transtorno alimentar é desgastante, e você também merece suporte.
Buscar ajuda é o caminho e você não precisa fazer isso sozinha

A extrema magreza como padrão estético vai continuar aparecendo nas redes, nas capas de revista e nos comentários sobre celebridades. Isso, infelizmente, não está sob nosso controle individual. O que está sob controle é como cuidamos da nossa relação com o próprio corpo e com a comida diante dessa pressão constante.
Se você se identificou com algum dos sinais descritos aqui, ou percebe que a preocupação com peso e aparência está ocupando um espaço desproporcional na sua vida, procurar um psicólogo é um passo importante e não precisa ser um passo grande.
No portal Allminds, você encontra psicólogos especializados no cuidado com transtornos alimentares e imagem corporal, prontos para te ouvir sem julgamento e construir, junto com você, um caminho de cuidado no seu ritmo.
Perguntas frequentes
Separamos aqui algumas perguntas frequentes em relação à extrema magreza:
Por que a extrema magreza voltou a ser um padrão de beleza em 2026?
A combinação entre a popularização das canetas emagrecedoras, o retorno de referências estéticas como o heroin chic dos anos 1990 e o reforço constante desses padrões pelos algoritmos das redes sociais recriou um ambiente cultural que valoriza a extrema magreza, semelhante ao de décadas passadas, mas em escala ainda maior.
Canetas emagrecedoras causam transtorno alimentar?
Elas não causam transtorno alimentar por si só, mas o uso sem indicação médica, especialmente por pessoas que já têm insatisfação corporal ou predisposição a transtornos alimentares, pode desencadear ou agravar quadros como a agonorexia, um padrão de restrição alimentar extrema induzido pelo medicamento.
Quais são os primeiros sinais de que a preocupação com o corpo virou um problema?
Isolamento social ligado à comida, rigidez extrema com regras alimentares, exercício compulsivo, mudanças de humor relacionadas ao peso e perda de peso rápida com sintomas físicos (fadiga, queda de cabelo, tontura) são sinais que merecem atenção profissional.
Como a terapia ajuda quem sofre pressão pela extrema magreza?
A terapia oferece um espaço para entender de onde vem a insatisfação corporal, desconstruir crenças reforçadas pelas redes sociais e desenvolver uma relação mais saudável com o corpo e a comida, com acompanhamento profissional adequado ao ritmo e à história de cada pessoa.
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